Blog da Primavera Editorial

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Arquivo de BATE-PAPO COM O AUTOR

Placar de Copas do Mundo


* Por Márcio Kroehn

A revista Placar tem o seu placar de Copas do Mundo. Até o jogo de abertura nesta sexta-feira, 11 de junho, na África do Sul, terão sido 10 torneios que passaram pelas páginas da revista. A seleção brasileira ganhou três títulos em quatro finais disputadas – um saldo para lá de positivo, mas que deve ser medido de outra maneira na contabilidade particular da Placar. As vitórias estão na beleza da cobertura esportiva. Nas três Copas da década de 1970, o mundo era praticamente em preto e branco e a televisão um luxo. Por isso, a revista trouxe imagens coloridas com sequências de lances dos gols, como se fossem tirinhas de histórias em quadrinhos. Nos dois torneios dos anos 1980, fotos que destacavam o balé do jogo e textos que levavam o leitor para dentro da magia dos 90 minutos de bola rolando. Nas três Copas seguintes, nos anos 1990, a evolução da tecnologia transpareceu nas páginas da revista: um torneio totalmente analógico na Itália, em 1990, e o universo digital tomando conta oito anos mais tarde. Pelas mãos do então diretor de redação Marcelo Duarte, Placar montou uma estrutura de redação para fazer toda a edição na França. A chegada do novo século e os anos 2000 quebraram a barreira do meio único da comunicação: mais que uma revista, Placar é uma marca que deve ser explorada na internet, no telefone celular, em imagens de DVD e onde mais o leitor apaixonado quiser boa informação sobre futebol.

É a adaptação quase natural de Placar, que inventa e reinventa sua trajetória. Em um tempo distante, a revista traduziu a emoção que a televisão ainda trazia timidamente aos telespectadores. Mais recentemente, soube complementar o brilho magnético do show de imagens. E qual teria sido o grande destaque? Nesses anos todos, há quase unanimidade: foram as edições que trouxeram os bastidores da Copa do Mundo de 1982. A dolorida derrota da seleção de Telê Santana não apagou o brilho do trabalho de Juca Kfouri, Carlos Maranhão, Marcelo Rezende e do fotógrafo JB Scalco – o Van Gogh dos pampas. As edições da revista tabelam com Zico, Falcão, Sócrates, Cerezo e companhia. E jogam ao lado do torcedor, com toda a carga de sentimento que o Brasil experimentou naquela Copa em solo espanhol. Hoje, as páginas de Placar estão envelhecidas pelo tempo, mas conservam a emoção do sangue correndo rápido após as vitórias e as lágrimas desesperadas que encerraram a trajetória de uma equipe que encantou o mundo.

Mas, abraçar apenas as edições de 1982 é cometer uma bárbara injustiça com a equipe que esteve no México em 1970. O tricampeonato brasileiro foi o mais importante evento na vida de Placar. E não apenas pela vitória. A revista estava nascendo, mas soube montar uma equipe que formou o DNA que seria passado para as gerações seguintes. O leitor veria nas edições que antecederam a Copa reportagens críticas e elucidativas sobre o ambiente da seleção. Era o enfrentamento que o regime militar detestava. Na fase de preparação da seleção brasileira, José Maria de Aquino, Lemyr Martins e Michel Laurence chegaram a ser barrados e considerados subversivos aos interesses do time verde-amarelo. “Escreviam nas entrelinhas”, disse um militar. Zé Maria respondeu que nas entrelinhas só havia espaço em branco. E ele publicaria tudo, com todas as letras, o que era de interesse do leitor. Foi a frase determinante para formar o caráter de Placar.

O interessante nessas histórias de Copa da revista são os ciclos que acontecem após o torneio mundial. Em 1982, Placar teve que se reinventar para sobreviver. Em 1970, a revista explorou nos meses seguintes a conquista e foi se mantendo firme nas bancas. Placar vive ou morre, nasce ou renasce a cada quatro anos. E esse período quadrienal ficou evidente na Copa do Mundo de 2002. A revista tinha praticamente encerrado suas atividades em janeiro daquele ano, mantendo uma estrutura enxuta para cobrir a Copa na Coreia-Japão. Sérgio Xavier Filho, Arnaldo Ribeiro e o fotógafo Alexandre Battibugli eram praticamente os únicos que restaram para levantar a bandeira da revista. A aposta foi produzir materiais complementares aos jogos da seleção brasileira. Deu tão certo que a conquista do pentacampeonato exigiu a produção de um DVD, que vendeu cópias suficientes para fazer a revista renascer.

Nesta primeira Copa do Mundo em solo africano, Placar não vai ser ingênua de encarar as redes de televisão. A promessa é que este seja o torneio com o maior número de geração de imagens. Para uma revista, é concorrência desleal. Mas lembre-se que Placar é, hoje, uma marca. E é com ela que Sérgio Xavier e sua equipe vão a campo. Placar estará em formato de jornal e na internet, com blogs e reportagens especiais. Quem sabe até vídeos especiais sejam produzidos e, principalmente, algumas surpresas que possam encantar os apaixonados leitores. Ao final, após 11 de julho, não importa qual tenha sido a seleção vencedora – apesar do Dunga, que seja a brasileira –, mas qual será a nova vitória que Placar colocará na sua sala particular de troféus.

* Márcio Kroehn, editor-assistente da revista IstoÉ Dinheiro, é o autor com Bruno Chiarioni do livro “Onde o esporte se reinventa: histórias e bastidores dos 40 anos de Placar”, lançado pela Primavera Editorial.

Maha Akhtar, a verdadeira neta da maharani Anita Delgado

Maha Akhtar, então diretora da CBS Communications – canal de notícias da rede norte-americana CBS – se surpreendeu ao ver recusado o pedido de uma nova via da certidão de nascimento, documento necessário à renovação do passaporte. Na busca por sua verdadeira identidade, descobre que não havia nascido na Austrália, como acreditava. Uma pista indicou um possível parentesco com Ajit Singh – filho de Anita Delgado, jovem bailarina espanhola – e de Jagatjit Singh, um dos marajás mais ricos da Índia do início do século XX. Esse foi o ponto de partida para uma longa saga em busca da própria origem, que resultou na obra “A neta da Maharani”.

Maha Akhtar – que se tornou uma dançarina notável de flamenco, dividindo o seu tempo entre Nova York, Sevilha e Nova Délhi – é atualmente colaboradora do Departures, uma das publicações de maior destaque do American Express Publishing Group of Magazine, e articulista do jornal The Times, na Índia. Entre muitas descobertas, a ex-assistente da banda The Cure soube que é a verdadeira neta de Anita Delgado, a espanhola que se casou com o marajá de Kapurthala e se tornou maharani aos 18 anos.


Primavera Editorial: Quando você percebeu que a pesquisa por sua origem renderia um livro?

Maha Akhtar: Eu senti “urgência” em escrever sobre a minha história. Na verdade, nunca pensei que a minha vida pudesse interessar a alguém, mas esse livro começou como um exercício. Cerca de seis meses após a morte de Zahra, minha mãe, eu estava em El Puerto de Santa Maria com alguns amigos; terminamos de comer e comecei a escrever alguns e-mails quando, por alguma razão, veio à mente a imagem da minha mãe, conversando comigo na escola de kathak, em Délhi. Comecei a escrever sobre aquele dia e, principalmente, sobre a força dela e o quanto me sentia confiante ao seu lado. Não percebi que estava chorando até chegar ao final do texto. Quando reli as palavras não acreditei como consegui recriar aquele dia com tanta precisão; foi como se tudo tivesse acontecido ontem, não há 35 anos. Nessa época, estava vivendo em Sevilha e dançando com Manuela Carrasco, ou seja, estava muito ocupada. Mas, cada vez que eu lia o texto, sentia que precisava continuar escrevendo; era como se algo me forçasse a contar toda a história. Comecei a escrever – primeiro sobre como iniciei no flamenco, na escola kathak, depois sobre a experiência de Nova York a Sevilha – e quando percebi já tinha 630 páginas. Cheguei a 890 páginas e, ao final, eram 1.200 páginas.

Primavera Editorial: Como foi o momento em que percebeu que não era quem pensava ser?
Maha Akhtar:
Honestamente, eu não consigo me lembrar. Tudo o que sei é que comecei a sentir “borboletas no estômago”; sabia o que minha mãe diria, antes mesmo que dissesse. Acho que no meu subconsciente sempre suspeitei que havia algo estranho. Só quando voltei a Nova York é que tive toda a gama de emoções – passei do desgosto ao choque; da tristeza ao alívio.

Primavera Editorial: Anita Delgado é um ícone para os espanhóis, mas o que essa extraordinária mulher significa para você?
Maha Akhtar:
Anita Delgado é, para mim, a mulher que deu à luz Ajit Singh; uma personagem secundária no meu mundo, não uma protagonista. Dito isto, acho que foi uma mulher extraordinária que teve a coragem, com apenas 16 anos, de deixar para trás família, casa e toda uma vida para viajar para o outro lado do mundo com um homem que não conhecia muito bem; um homem cuja vida e cultura conhecia ainda menos. Ainda hoje nos parece extremamente difícil o que Anita fez há 100 anos! Ela foi uma pioneira, uma das poucas mulheres que se atreveram a estender uma ponte entre o enorme fosso que separa o Ocidente do Oriente. E, para seu mérito, isso funcionou por pelo menos duas décadas. O que eu admiro nela é a sua determinação e coragem, seu senso de aventura.

Primavera Editorial: E qual é a sua opinião sobre sua avó materna, Laila?
Maha Akhtar:
Laila é minha heroína! Foi uma mulher moderna que para seu infortúnio nasceu em uma época e dentro de uma cultura que não aceitava sua maneira de pensar ou agir. Era linda, inteligente e independente. Queria viver de acordo com as suas próprias normas e ficar à parte do que a sociedade ditava. Laila não se importava com o que as pessoas diziam quando se vestia como uma ocidental – bebia champanhe e fumava o narguilé sem se esconder. Às vezes, eu acho que fazia somente para “chocar” as pessoas, pois tinha consciência de como podia irritar as pessoas; Laila era intencionalmente exuberante e adotava uma postura escandalosa para provocar uma reação maior da sociedade. Era uma mulher espetacular, que não estaria deslocada no mundo contemporâneo.

Primavera Editorial: E quanto a sua mãe, Zahra?
Maha Akhtar:
Zahra é uma figura trágica. Viveu superprotegida, sempre à sombra de uma personalidade forte e determinada, que era sua mãe, Laila. Quando foi enfrentar o mundo sozinha, não era madura nem sofisticada o bastante para cuidar de si mesma. Minha mãe viveu algemada, incapaz de ajudar a si mesma ou a mim. Mas, tentou e fez o melhor que podia com o pouco que tinha.

Primavera Editorial: Você perdoou Zahra por ter escondido a sua origem?
Maha Akhtar:
Quando o choque inicial passou, sentei e refleti sobre o que tinha acontecido; eu era um turbilhão de emoções. Quando a raiva desapareceu e as lágrimas secaram, eu tinha duas escolhas: seguir em frente ou continuar me atormentando. Eu me olhei no espelho e vi uma pessoa diferente. Era a mesma de antes, a minha personalidade e o meu caráter não haviam mudado, mas eu tinha recebido respostas às perguntas que havia feito durante toda a vida. Soube porque os meus pais me enviaram para um colégio interno, porque arranjaram um casamento, porque a relação com meu pai estava tão exasperada. Decidi seguir em frente. E sim, eu perdoei. Entendo que era outra época, outro tempo, outra cultura. Entendo que Zahra era uma jovem mulçumana, grávida em 1964, que não tinha escolha e cometeu um erro. Há um ditado que diz: “errar é humano; perdoar é divino”.

Primavera Editorial: Na obra, além de trazer à tona a vida de três mulheres admiráveis da sua família – Anita Delgado, Laila e Zahra – você revela duas faces da própria vida: a adolescente com uma vida familiar estranha e a profissional bem-sucedida, trabalhando com um grande jornalista, Dan Rather. Como classifica essa trajetória?
Maha Akhtar:
Foi uma honra e um privilégio trabalhar para Dan Rather, um ícone do jornalismo nos Estados Unidos. Os 15 anos que trabalhei com ele foram os mais emocionantes de minha vida – acompanhei, em primeira mão, os grandes acontecimentos do mundo. Fui para Bósnia e Afeganistão; estive na famosa entrevista de Dan com Saddam Hussein, em 2002. Em 11 de setembro, no atentado a Oklahoma, fui várias vezes à Casa Branca e conheci o presidente Bill Clinton e Hilary Clinton; conheci o presidente George Bush; estive em todas as convenções políticas; conheci as principais figuras da vida pública dos Estados Unidos, sem falar dos chefes de Estado de outros países. Meu momento favorito foi quando Fidel Castro veio a Nova York e esteve na CBS News para conhecer o Dan Rather. Estava emocionada com a possibilidade de vê-lo com o uniforme verde oliva, mas se apresentou com terno preto Valentino, a barba feita e o cabelo penteado para trás, com gel. Fidel Castro trouxe charutos cubanos para Rather, que o presenteou com um taco de beisebol, assinado pelos jogadores do New York Yankees.

Primavera Editorial: Com essa experiência de vida, o que você pensa sobre a posição da mulher no mundo muçulmano?
Maha Akhtar:
É muito preocupante ver o tratamento ofensivo que é dado às mulheres em muitas partes do mundo muçulmano – são insultadas, menosprezadas e criticadas apenas porque são mulheres. É uma mentalidade ultrapassada, característica de épocas atrasadas e nunca entenderei. E continua a ser assim, apesar do grande salto que a humanidade deu nos últimos 50 anos. Felizmente, nem todo o mundo muçulmano mantém as mulheres prisioneiras; há muçulmanas que não aceitam as normas antigas e quebram os paradigmas para tornar-se políticas, empresárias, artistas, escritoras, cantoras, músicas; mulheres que vivem sem medo de punição. A rainha Rania, da Jordânia, conferiu uma nova imagem à mulher muçulmana. Bonita e inteligente, está em pé de igualdade com seu marido.

Primavera Editorial: Como o flamenco e a Espanha entraram em sua vida?
Maha Akhtar:
Amei o flamenco desde que assisti ao primeiro espetáculo no La Reina Mora, em Granada. Eu gostei da música, do ritmo, dos vestidos e das flores; ter a oportunidade de dançar flamenco é agora um sonho que se realizou. E, ser capaz de fazer isso em Sevilha é um sonho ainda maior, também realizado. A partir do momento que pisei em solo espanhol, já me senti em casa; não pareceu ser um país estrangeiro. Na verdade, gostei tanto que comprei uma casa em Sevilha.

Primavera Editorial: Há algo que se arrepende de ter contado?
Maha Akhtar:
Francamente, eu não sei o que mudaria. Em um momento pensei em fazer como uma saga ampla de três mulheres, com muitos detalhes e cores da Índia no início do século XX; um livro com mais detalhes da vida dos marajás indianos; da sociedade e cultura de Beirute dos anos 1920; e de Londres da década de 1960. Mas, seria talvez demasiado ambicioso e me afastaria da essência da história; complicaria em excesso uma história que por si só já é complicada. Já foi duro o suficiente explicar, em termos simples, uma profusão de detalhes. Agora, acho que é suficiente para evocar imagens, paisagens, cheiros e sons que eu queria expressar.

O contraditório mosaico feminino do Irã


(…) “A professora Mitra Rahmani, de 46 anos, entrou com seu carro, um vistoso Samand azul, no campus da Universidade Shahid Beheshti, na zona norte de Teerã (…). Vestia um sóbrio conjunto de calça e blusão marrom de gabardina, que lhe cobria todo o corpo, e usava dois anéis de ouro, o metal das mulheres. A maquiagem era discreta: limitava-se a um batom muito leve, quase imperceptível, nos lábios. Ela ajeitou a enorme echarpe preta de seda grossa em torno do rosto, que adotara havia um bom tempo em substituição ao tradicional chador, deixando entrever algumas mechas dos brilhosos cabelos castanho-escuros (…). Levava nos braços duas pastas chatas com apostilas e programas de aula e um exemplar da revista feminina Zanan, além de dois livros, ambos edições francesas (…). Mitra sentou-se diante de um dos computadores conectados à rede e percorreu rapidamente alguns sites noticiosos iranianos a fim de saber notícias das eleições. A apuração parecia que entrara na reta final.

Neste trecho de “O véu” – meu sétimo livro, o primeiro lançado pela Primavera Editorial – somos apresentados a Mitra Rahmani, protagonista do núcleo iraniano, uma professora universitária, culta, independente, corajosa, autônoma e apaixonada por seu trabalho. Na obra, ela simboliza uma das muitas contradições que marcam o Irã contemporâneo. Desde a Revolução de 1979, quando a Sharia (a lei islâmica) passou a ser aplicada no país, as mulheres iranianas são obrigadas a cobrir a cabeça com um véu; seus depoimentos em um tribunal valem a metade do de um homem; são proibidas de exercer a magistratura; e as prostitutas e adúlteras podem ser punidas com o apedrejamento até a morte. Por outro lado, 60% das vagas nas universidades são ocupadas por mulheres, a força de trabalho feminina – que nos tempos pré-revolução não chegava a 15% do total –, atualmente gira em torno de 30%. As iranianas estão presentes em praticamente todas as atividades econômicas: na polícia, nos esportes, conduzindo ônibus nas ruas de Teerã, no parlamento e no poder executivo.

Recentemente, a ginecologista, professora universitária e ex-deputada Marzieh Vahid-Dastjerdi foi nomeada, pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad, ministra da Saúde do novo governo eleito no polêmico pleito de junho de 2009. É a terceira mulher a ocupar um ministério na história do Irã. Durante a administração do presidente Mohammad Khatami (1997-2005), o país contou com uma vice-presidente, a cientista Masoumeh Ebtekar. Esssas são circunstâncias impensáveis em muitos dos países do Oriente Médio, como a Arábia Saudita, onde as mulheres não ocupam mais do que 5% do mercado de trabalho e são proibidas de votar, dirigir, andar de bicicleta e de manter contas individuais em bancos sauditas sem a autorização dos maridos.

No Irã contemporâneo existe uma crescente tomada de consciência por parte da sociedade, que visa abertura do regime, o abrandamento de regras, mais liberdade e igualdade; e as mulheres estão à frente desse movimento. Organizadas, politizadas e instruídas, elas constituem o principal agente de mudanças no país e têm atuado em várias frentes. Não apenas nos protestos, onde tomam cada vez mais parte, como, principalmente, em pequenas, porém significativas transgressões do dia a dia, como deixar partes do cabelo à mostra, vestir roupas coloridas, maquiar-se, comunicar-se com o mundo via internet e se misturar livremente a rapazes em festas clandestinas que costumam varar noites – embaladas por ritmos ocidentais, álcool e muita sensualidade. Assim, elas vão ocupando cada vez mais espaço na sociedade e, com isso, minando aos poucos os alicerces da República Islâmica, desafiando sua ideologia e fazendo com que a opressão perca sua legitimidade e sua própria razão de existir.

*Luis Eduardo Matta
Considerado uma das vozes mais criativas e originais da nova literatura nacional, Luis Eduardo Matta nasceu no Rio de Janeiro, em 1974, cidade onde atualmente reside. De origem libanesa católica parte de pai, Luis Eduardo Matta passou a infância e a adolescência entre o bairro carioca de Copacabana e uma chácara em Maricá, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Desde 1990 se dedica a estudos sobre política internacional com foco no Oriente Médio. Um dos pioneiros e principais nomes do thriller não-policial no Brasil, iniciou sua carreira literária em 1993, aos 18 anos, com o romance Conexão Beirute-Teeran (Editora Chamaeleon), prefaciado pelo embaixador e intelectual libanês Mansour Challita, um dos maiores especialistas em Oriente Médio no Brasil, de quem Matta foi grande amigo.

Sua produção intensificou-se a partir dos anos 2000, com a publicação de outros thrillers, como Ira implacável (Razão Cultural Editora) e “120 horas” (Editora Planeta). Em 2007, estreou na literatura juvenil, publicando Morte no colégio, pela Coleção Vaga-Lume e Roubo no Paço Imperial e O rubi do Planalto Central pela Coleção Olho no Lance, ambas da Editora Ática. Como contista, participou das antologias de literatura fantástica Território V: Vampiros em guerra e Dimensões.BR. A ficção de Luis Eduardo Matta é caracterizada pelas tramas de mistério e suspense muito elaboradas, pela linguagem clara e elegante, pela precisão histórica e geográfica e por uma leitura diferenciada do gênero “thriller”. Com um forte perfil multicuturalista, as obras de Matta são ambientadas em diferentes países com interação entre personagens brasileiros e de outras nacionalidades, principalmente árabes, israelenses, iranianos, hispanos-americanos e naturais da chamada Europa Latina.

Em 2003, inspirado nas idéias do crítico literário paulista José Paulo Paes expostas no livro A aventura literária, Luis Eduardo Matta publicou um manifesto em prol de uma literatura de entretenimento brasileira, que apelidou de literatura popular brasileira (LPB). Nos vários ensaios que escreveu destaca-se, ainda, a defesa contundente de uma reformulação no ensino de literatura no Brasil e da democratização da leitura entre a população brasileira. O escritor mora no Rio de Janeiro. A gradativa consolidação da carreira literária de Luis Eduardo Matta tem materializado o sonho do autor: ver surgir um thriller genuinamente brasileiro. Com abordagem contemporânea e estilo ágil, sutil e refinado, Matta confere ao thriller uma fisionomia brasileira sem despojá-lo das características fundamentais do gênero universal.

Mais informações sobre o autor podem ser obtidas na entrevista concedida ao blog da Primavera Editorial. Link: http://aprimaveraeditorial.wordpress.com/2009/09/21/385/. O endereço do site do autor é www.lematta.com

Entrevista: Luis Eduardo Matta

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Primavera Editorial: Você começou a escrever cedo, aos 17 anos. Como foi esse “despertar” para o ofício de escritor?
Acima de tudo, inesperado. Eu assistia a uma entrevista de Jorge Amado e Zélia Gattai na televisão, quando, um desejo muito forte de escrever se apoderou de mim repentinamente, e nunca mais me largou. Era o fim da noite de 20 de janeiro de 1992, uma segunda-feira. Lembro-me daqueles momentos como se tivessem acontecido outro dia. Passei a madrugada do dia 21 em claro, anotando ideias freneticamente em um caderno de pautas; já na manhã seguinte, estava às voltas com a redação do meu primeiro thriller, Conexão Beirute-Teeran, que ficou pronto em abril. Fui contratado por uma editora em setembro, e lancei em maio do ano seguinte, quando eu já estava com 18 anos. Essa paixão pela escrita permanece, hoje, tão forte quanto naquela época.

Primavera Editorial: Os seus livros têm o Oriente Médio como um dos cenários. Por que essa escolha?
Por várias razões. Uma delas é que tenho ascendência libanesa pelo lado paterno. Isso, é lógico, foi determinante. O que mais me atrai no Oriente Médio até hoje, no entanto, é a sua riqueza histórica e cultural e, principalmente, as suas inúmeras contradições. Todos os países que compõem a região apresentam contrastes fascinantes. Além disso, é uma zona turbulenta, onde há muitos interesses em jogo e conflitos que parecem não ter fim. Um cenário perfeito para um thriller.

Primavera Editorial: Qual foi a inspiração para escrever O véu?
Quando terminei de escrever 120 horas, em abril de 1999, eu tinha três certezas sobre o romance seguinte: seria uma história diferente das que eu tinha escrito, teria cenas em um país do Oriente Médio que não fosse Líbano, Síria ou Israel – que serviram de ambientação para os meus dois thrillers anteriores – e suas principais personagens seriam mulheres. Numa tarde, conversando sobre o mercado de arte com um tio que era leiloeiro em São Paulo, percebi que esse seria um bom cenário para o livro e tive a ideia de focar a trama em um quadro intrigante, misterioso, até mesmo diabólico. Daí passei a frequentar leilões de arte e galerias, a conversar com marchands e leiloeiros, a comprar revistas especializadas e a estudar mais sobre o assunto. O livro começou a ser escrito em setembro daquele ano e eu só o concluí, de fato, em junho de 2009 – praticamente dez anos depois e após tê-lo reescrito algumas vezes.

Primavera Editorial: O que diferencia um thriller dos outros gêneros?
Acima de tudo, o suspense e algum nível de conflagração. Ambos são elementos imprescindíveisem um thriller. Todo o resto, embora tenha sua importância, é coadjuvante. O thriller é um tipo de ficção que se vale da capacidade de despertar curiosidade, tensão, ansiedade, terror e emoção no leitor para seduzi-lo a atravessar toda a história.

Primavera Editorial: Como é o seu processo de criação? Você tem uma rotina para escrever?
Preciso ter, porque sou naturalmente disperso e com uma tendência à indisciplina. Então, me obrigo a escrever por um número de horas diárias, todos os dias, inclusive nos finais de semana. Como me ocupo, simultaneamente, de literatura para adultos e para adolescentes, estabeleço horários definidos para ambas. Mas tem dias em que as ideias não saem de jeito nenhum, e, aí, prefiro não forçar e gasto meu tempo com outras coisas.

Primavera Editorial: O que é, na sua opinião, ser escritor?
No meu caso, é uma forma intensa de existir e parte fundamental da minha identidade. Eu já era escritor com livro contratado quando, aos 18 anos, ingressei oficialmente na vida adulta. A literatura foi uma benção na minha vida. Ela está tão impregnada em mim, que já não sou capaz de dissociar o Luis Eduardo homem do Luis Eduardo escritor.

Primavera Editorial: Como definiria a sua obra?
São, basicamente, romances brasileiros de suspense e mistério para os públicos adulto e juvenil. Ao escrever, procuro valorizar a nossa língua, mas sempre com a preocupação de manter uma linguagem clara, fluida.

Primavera Editorial: Como foi o processo de construção de cada personagem? Você se identifica, em especial, com alguma delas?
A construção das personagens é uma das coisas mais fascinantes na criação de um livro. Eu lido com as minhas personagens quase como se fossem pessoas vivas. Nossa relação, contudo, é ambígua. Ao mesmo tempo em que me sinto muito ligado a elas, procuro guardar um distanciamento. Minhas personagens não são, de maneira alguma, alter-egos meus. São, isso sim, um somatório de pessoas que conheci na vida real e na ficção. A vida das outras pessoas me interessa muito mais do que a minha. O cotidiano, mais do que a própria literatura, é a minha maior fonte de inspiração.

Primavera Editorial: Qual foi o livro que “transformou a sua vida” e o incentivou a exercer o ofício das letras?
Essa é uma pergunta difícil. Um livro que certamente me transformou foi o primeiro que li, pois me despertou a paixão pela leitura. Ele pertencia à antiga série da “Inspetora”, escrita por Ganymedes José, que acabei lendo toda. Já o estímulo à escrita veio, mais do que dos livros, de uma necessidade de exteriorizar um mundo interior que pulsava inquieto dentro de mim e pedia para ser libertado.

Primavera Editorial: Você tem algum escritor que o influenciou?
Agatha Christie foi, sem dúvida, uma influência marcante. Embora meus thrillers não sejam policiais.

Primavera Editorial: O que você está lendo atualmente?
Sou eclético nas minhas leituras. Nunca torci o nariz para nenhum tipo de literatura. Costumo ler vários livros ao mesmo tempo. Neste momento, estou conciliando a leitura de três ótimos thrillers – um francês, um espanhol e um argentino – com a releitura de Os sertões, de Euclides da Cunha.

Primavera Editorial: Qual é o “conselho” que daria aos novos escritores?
Tenham paixão pela escrita, em primeiro lugar. Cultivem a paciência, pois as coisas nesse meio costumam ser muito demoradas. Sejam autocríticos, desconfiem permanentemente do próprio talento e perseverem. A perseverança é nossa grande aliada, é ela que abre portas que parecem lacradas. E, acima de tudo, controlem o próprio ego. A vaidade exacerbada é uma das maiores inimigas de um escritor, pois faz com que ele se dê uma importância excessiva, uma importância que ele não possui. Devemos lutar contra a nossa vaidade todos os dias. Ela pode devorar a nossa alma e nos transformar em criaturas ridículas e detestáveis.

Primavera Editorial: O que vem a ser o movimento da “Literatura Popular Brasileira” que você defende?
Não é bem um movimento. Eu nem tenho competência para capitanear um movimento literário. A “Literatura Popular Brasileira” é uma proposta aberta a todos os escritores, sobretudo os iniciantes, que se originou de uma percepção minha em relação à nossa literatura. Temos, historicamente, uma carência de literatura de entretenimento feita por brasileiros. Mas isso começa a ser revertido. Já há autores escrevendo nesta linha, em diferentes gêneros. Alguns com obras muito boas.

Primavera Editorial: Quais são, então, as dificuldades para a criação dessa “Literatura Popular Brasileira”?
Basicamente, a falta de tradição de uma literatura de entretenimento no Brasil. A nossa literatura, que é extraordinária sob vários aspectos, é tratada por muitos escritores com uma solenidade excessiva. Produzir profissionalmente uma literatura popular no Brasil é, de certo modo, romper com essa tradição e muita gente não se sente capaz de fazer isso. Por outro lado, há escritores que, simplesmente, copiam de forma rasteira a ficção de gênero estrangeira, sobretudo em países onde ela está mais consolidada, como os Estados Unidos. A nossa literatura de entretenimento deve ter identidade própria. Já li, por exemplo, resenhas e depoimentos de leitores que diziam que eu pretendia ser um Frederick Forsyth brasileiro. Eu nunca tive essa intenção. Quem afirmou isso, não sabia o que estava dizendo.

Primavera Editorial: Você acha que as editoras brasileiras não atuam de forma a valorizar esse surgimento da “Literatura Popular Brasileira”?
Algumas atuam. Mas, a literatura de entretenimento é uma vertente que ainda está se consolidando e o novo sempre atrai desconfiança. Além disso, ainda somos poucos autores produzindo obras nessa linha. Com os anos, esse panorama tende a mudar. Tudo tem seu tempo para acontecer.

Primavera Editorial: Você acredita no poder transformador da literatura?lematta09.2009_ 227(1)
Totalmente. Eu sou um exemplo de alguém transformado pela literatura. A leitura abre para nós um horizonte vasto, fantástico, de infinitas possibilidades. Ler um livro é sempre uma aventura existencial. A literatura é um espelho crítico da realidade, que a reflete de forma amplificada. Ao me confrontar com tantos mundos, com tantas maneiras de pensar e de existir, expostas nas histórias que li, me tornei mais ciente da multiplicidade da vida e, portanto, mais humilde e humano. Posso afirmar, com segurança, que a literatura me fez uma pessoa melhor.

GILBERTO ABRÃO, UM ESCRITOR QUE RETRATA A COMUNIDADE ÁRABE EM PALAVRAS

Aos 10 anos, Gilberto Abrão foi enviado ao Líbano pelos pais para estudar o idioma árabe e aprender mais sobre a cultura e a religião muçulmana. Educado em dois mundos distintos – o árabe e o brasileiro – o autor usou sua história de vida para transpor para o papel a trajetória fictícia de Mohamed, um jovem imigrante sírio que chega ao Brasil no início do século passado. O “namoro” de Abrão com a literatura começou na década de 1970, quando passou a escrever contos e crônicas para o jornal Zero Hora e se consolida quatro décadas depois com o lançamento do livro da Primavera Editorial, que promete encantar leitores ávidos por informações sobre a presença da comunidade árabe no País. Embora seja uma obra de ficção, há muito de vida real em Mohamed, o latoeiro.

“Segundo meu pai, o fato de eu ter nascido durante a Segunda Guerra Mundial justifica a minha rebeldia e falta de juízo”, conta Gilberto Abrão, que foi educado em um bairro simples de Curitiba, habitado por imigrantes poloneses, ucranianos, italianos, alemães e alguns sírio-libaneses. “Voltei do Líbano aos 14 anos, fui estudar à noite e trabalhar durante o dia. O colégio não tinha boa fama, pois aceitava alunos já crescidos, rejeitados ou expulsos de outras escolas. No entanto, o prédio anexo à escola abrigava a Faculdade de Direito de Curitiba, onde acompanhei brilhantes conferências de renomados intelectuais e políticos de diferentes vertentes e posições partidárias, das décadas de 1950 e 1960”, detalha o autor.

Rato de biblioteca, Gilberto Abrão leu os grandes clássicos da literatura nacional e mundial – de Machado de Assis a Franz Kafka – além velhos jornais de Angola e Moçambique. Em 1962, o autor se alistou como voluntário das Forças de Emergência das Nações Unidas para guarnecer as fileiras de soldados que atuavam na fronteira entre o Egito e Israel. Por ser fluente em árabe e inglês permaneceu por 14 meses na Faixa de Gaza. Apaixonado por uma gaúcha, retornou ao Brasil em janeiro de 1965 para lecionar inglês em uma grande escola de idiomas. No ano seguinte, após obter o licenciamento para abrir uma franquia dessa escola de inglês, migrou para a cidade de Novo Hamburgo (RS). No início da década de 1970 iniciou o “namoro” com a literatura ao colaborar com o jornal Zero Hora, no qual publicava crônicas e contos na coluna Sol e Chuva. “Até me aventurei a tecer comentários políticos e tive a honra de ser censurado pela direção do jornal, que nessas ocasiões colocava anúncios em substituição à coluna”, conta.

Amigos – entre eles a professora Juracy Saraiva, mestre e doutora em literatura – desde 1983 insistem para que Gilberto Abrão escreva um livro. Dividido entre “ganhar dinheiro ou fazer literatura”, sempre escolheu a primeira opção. “Por conta de uma cirurgia no joelho, que me obrigou a ficar 40 dias em casa, decidi aceitar a sugestão da minha esposa e iniciar um livro. Comprei um notebook e comecei a escrever Mohamed, o latoeiro”, afirma, acrescentando que ainda continua dando as aulas de inglês.

Saiba mais sobre o novo autor da Primavera Editorial nessa entrevista exclusiva.

GilbertoAbrao
Primavera Editorial: Qual foi a inspiração para escrever Mohamed, o latoeiro?
Gilberto Abrão:
Quando eu era criança e mesmo na adolescência, ouvia as histórias contadas pelos velhos imigrantes árabes que se reuniam na Praça Tiradentes ou nos cafés da Rua XV, em Curitiba. Eles falavam de seus problemas, dos encontros e desencontros; das perplexidades com a cultura da nova pátria, as aventuras nesse interior do Brasil como mascates, seus amores e desamores, alegrias e tristezas. Nos fins de semana, visitavam-se e se reuniam em uma autêntica sessão de nostalgia: cantavam, dançavam e lembravam da terra e dos parentes que tinham abandonado. A maioria jamais voltou aos seus países. Portanto, achei que essa comunidade de imigrantes tem histórias extremamente ricas para serem contadas.

Primavera Editorial: Como é o seu processo de criação? Você tem uma rotina para escrever?
Gilberto Abrão:
Primeiramente, preciso da ideia central. Isso é o mais importante para mim. No caso do meu romance de estreia, “Mohamed , o latoeiro”, surgiu a ideia que forma a espinha dorsal da história, ou seja, a vida do herói principal. A partir daí, vou enfeitando o romance como se fosse uma árvore de Natal. Uma bola aqui, uma estrela acolá, flocos de algodão mais adiante… É muito comum modificar a história, escrever e reescrever um episódio várias vezes. Gosto de escrever. Gosto de contar histórias. Então, quando começo, vou a um ritmo só, geralmente escrevendo à noite, quando posso ler em voz alta aquilo que escrevi. Dou muita ênfase ao efeito sonoro da palavra. Nesse momento, por exemplo, já tenho o segundo livro pronto. Estou relendo para ver se precisa de modificações. Não estou escrevendo presentemente, mas já surgiu a ideia central do terceiro livro e já sinto coceira no cérebro.

Primavera Editorial: Por que optou, em sua estreia na literatura, por um romance?
Gilberto Abrão:
Poderia ter começado com um livro de contos, mas não teria o mesmo impacto – eu acho – do que um romance como “Mohamed, o latoeiro”. Acho que se você é novato no ofício, o primeiro livro tem que chamar a atenção do público e da crítica de alguma forma. Um romance que conta a saga de alguém, como é o caso desse, vem bem à feição. Sou ambicioso demais para ser lançado com um livro de contos. Talvez mais tarde eu ponha no meu projeto um livro de contos; matéria-prima para isso, eu tenho aos montes.

Primavera Editorial: Fale um pouco sobre a emoção de publicar um livro pela primeira vez? Como o livro foi selecionado pela Primavera Editorial?
Gilberto Abrão:
A emoção é indescritível! Não estou acreditando ainda; parece que não sou eu. Parece que o Gilberto Abrão escritor é outro cara. Desde que a Primavera Editorial decidiu publicar a minha obra, eu ando nervoso, excitado, impaciente, ansioso, feliz. Curo um herpes de fundo nervoso no nariz, para logo em seguida nascer outro, tamanha é a tensão. É uma excitação incomparável! Na verdade, quando enviei os originais para a Primavera Editorial, tinha terminado quase um ano antes. Já tinha enviado para uma grande editora do mercado. Eles gostaram da obra, fizeram rasgados elogios e prometeram publicá-la. Passou-se quase um ano e eles permaneciam dando um “chá de banco” – sempre me engambelando com promessas. Não aguentei mais! Seguindo o conselho de um amigo crítico literário, mandei a obra para a avaliação da Primavera Editorial. A resposta veio em menos de um mês. Da aprovação da obra até a assinatura do contrato foram uns dois meses. Vapt-vupt! A Primavera é ágil e eu gosto de gente ágil.

Primavera Editorial: O que é, na sua opinião, ser escritor?
Gilberto Abrão:
Um escritor é simplesmente aquele que retrata a sua comunidade com palavras. Daí a importância delas, as palavras. Ele tem um enorme compromisso com o povo de sua aldeia e com a sua língua. Mas, acima de tudo, deve sempre se lembrar de que é um contador de histórias. E o objetivo maior deve ser contar uma história, seja com um pesado conteúdo sociofilosófico, dramas existenciais, personagens com complexas características psicológicas ou, simplesmente, uma história gostosa de ser lida, sem maiores ambições; apenas para entreter o leitor.

Primavera Editorial: Como definiria a sua obra?
Gilberto Abrão:
Uma saga que embora leve, não se dissipa. Veio para ficar; não vai desaparecer logo ou ser esquecida. Narro a vida de um imigrante árabe – suas mazelas, alegrias, sofrimentos, derrotas e vitórias. A maioria dos personagens é árabe, portanto, a linguagem utilizada na obra é cultural e emocionalmente árabe. O leitor vai estranhar, a princípio, o modo de uma personagem cumprimentar a outra, de falar com ela; vai notar também o forte impacto da religião nas interações das pessoas. Sintetizando, é uma história árabe, com tudo que a expressão possa carregar em si de emocional, cultural e linguístico, só que narrada em português.

Primavera Editorial:Como foi o processo de construção de cada personagem? Você se identifica, em especial, com alguma delas?
Gilberto Abrão:
Cada personagem tem um pouco das pessoas verdadeiras que eu conheci na minha infância – seus dramas íntimos e idiossincrasias. Segui a receita mais comum na construção de uma história, tem o herói e tem o vilão; o bom e o mau. Mas nem sempre o herói faz o bem e nem sempre o mau caráter faz o mal. De vez em quando, os papéis se invertem. E tem a mocinha, naturalmente, que será identificada logo nas primeiras páginas, pela simpatia que vai exercer sobre o leitor.

Primavera Editorial: Qual foi o livro que “transformou a sua vida” e o incentivou a exercer o ofício das letras?
Gilberto Abrão:
São vários os livros que me incentivaram a escrever. Não seria justo mencionar só um. Desde pequeno eu sempre gostei de ler. Lia de tudo, de gibis a aventuras de Julio Verne. De jovem-adulto à maturidade, li muitos livros. Mas vou mencionar alguns que realmente deram um empurrão: Guerra e Paz, de Leon Tolstói; Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado; e Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez.

Primavera Editorial: Você tem algum escritor que o influenciou?
Gilberto Abrão:
De novo, é difícil citar só um. Eu diria que os três que mencionei acima e mais Machado de Assis, Guimarães Rosa, Franz Kafka, Thomas Mann e mais alguns escritores árabes, entre eles, o egípcio Nagib Mahfuz. Tentei absorver o máximo possível desses ícones todos.

Primavera Editorial: De que modo a experiência como voluntário das Forças de Emergência das Nações Unidas e o fato de ter vivido no Líbano influenciaram a escolha do tema do seu romance de estreia?
Gilberto Abrão:
Uma influência de quase cem por cento, eu diria. A tradição da narrativa oral é ainda muito viva nos países árabes. O árabe gosta de contar histórias, é atávico em sua cultura. Acho que os gaúchos herdaram muito disso pela Península Ibérica. O trabalho nas Forças de Emergências das Nações Unidas foi igualmente importante e influente. Estive na Faixa de Gaza e ali é um caso especial.

Primavera Editorial: Qual é o “conselho” que daria aos novos escritores?
Gilberto Abrão:
Antes de mais nada, o escritor deve viver a vida em toda a sua plenitude. É dela que ele vai extrair toda a matéria-prima para esculpir o seu romance, conto ou poesia. Em segundo lugar, conviver, ler e escrever; escrever e escrever, até que atinja o estágio maior…

Entrevista: Caco Porto

Primavera Editorial: Qual foi a inspiração para escrever As Duas Faces da Abóbora?

cacoporto_portalCaco Porto: Acho que a inspiração emergiu naturalmente depois que assisti, como todos nós, aos acontecimentos que literalmente sacudiram o mundo entre os anos 2000 e 2001 – o estouro da “Bolha da Internet”, quebrando empresas e demitindo pessoas, e o atentado ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. Esses eventos geraram enormes ondas de mudança no mundo, sobretudo nos Estados Unidos, pois muitos norte-americanos começaram a olhar para o resto do mundo de modo mais consciente, o que significou uma mudança de postura em relação às culturas e ao planeta. Associado a esses eventos, contribuiu para a minha inspiração a percepção de que as diferentes culturas estavam se amalgamando rapidamente por meio da internet e dos meios de comunicação pela interação de pessoas, grupos culturais e organismos governamentais. Isso representa o nascimento de um “novo mundo”, uma “nova sociedade” em formação, baseada na informação compartilhada e democrática, fazendo força de reação às anomalias do modelo sociopolitico-econômico vigente.

Primavera Editorial: Como é o seu processo de criação? Você tem uma rotina para escrever?

Caco Porto: Meu processo de criação parte de dois pressupostos básicos. O primeiro é que todo o trabalho deve nascer de uma ideia original, nunca antes escrita ou esboçada. O segundo é que a história tem que ter a capacidade de “prender” o leitor à leitura do início ao fim – ou na poltrona do cinema, caso ela seja levada para a tela. Uma vez cumpridos esses dois pressupostos na elaboração e estruturação da ideia original, que veio da inspiração, começo o detalhamento e aprofundamento da história, criando as personagens com suas biografias. Trabalho em um processo top-down para formar a espinha dorsal da história e a mensagem que transmite, da mesma forma com que um pintor esboça primeiro o quadro com lápis-carvão e depois de estruturado vai aplicando as camadas de tinta. Uma vez criada a história – com início, meio e fim – passo a escrever, colocando-me no lugar de cada uma das personagens. Eu me transporto para o universo deles. Eu não tenho uma rotina determinada para escrever. Muito do que escrevo acontece como uma descarga depois de muita introspecção sobre a construção das personagens e da história, às vezes até por meses. Mas, tenho minhas preferências para escrever – entre elas, olhando o mar de Arraial do Cabo, no Estado do Rio de Janeiro. A visão contemplativa do horizonte marinho incita a inspiração de qualquer pessoa.

Primavera Editorial: Por que optou, em sua estreia na literatura, por um romance?

Caco Porto: Optei pelo romance porque permite que a mente do escritor viaje de modo ilimitado, partindo da terra da realidade para os vastos territórios da imaginação. É essa mesclagem, real e ficcional, que é fascinante no processo de criação, pois permite que imaginemos situações singulares que poderiam acontecer na vida real e que surpreendam o leitor, transportando-o completamente para o universo da história.

Primavera Editorial: Fale um pouco sobre a emoção de publicar um livro pela primeira vez.

Caco Porto: Sem sombra de dúvida, trata-se de uma emoção única, que traz um fortíssimo sentimento de realização por ter atingido uma meta importante de vida. Quero continuar criando outras histórias que tenho em mente para literatura e cinema. Escrever, além de dar prazer ao escritor ou roteirista, proporciona a grande chance de transmitir uma mensagem para milhares, milhões ou até bilhões de pessoas. Ou seja, é uma emoção muito grande ter a primeira edição nacional de As Duas Faces da Abóbora trazida ao mercado pelas mãos profissionais de Lourdes Magalhães, presidente da Primavera Editorial.

Primavera Editorial: O que é, na sua opinião, ser escritor?

Caco Porto: Para mim ser escritor é ter a capacidade de olhar para fora de si, ver o mundo à sua volta; perceber, entender e aceitar a enorme diversidade, e extrair da vida real a matéria-prima para tecer histórias únicas que envolvam, entretenham e transmitam uma mensagem central que agregue valor para as pessoas, ainda que em um universo ficcional. Na verdade, a capacidade de olhar para fora de si não se aplica apenas aos escritores, mas a todos nós independente do que sejamos ou fazemos. Olhar para fora e perceber o mundo é reconhecer que somos uma pequena parte dele, uma partícula.

Primavera Editorial: Como definiria a sua obra?

Caco Porto: Trata-se de uma obra contemporânea que tenta retratar uma fatia do mundo atual por meio dos opostos. Esses opostos são, em todos os sentidos, os componentes do universo material do qual fazemos parte – como o dia e a noite, o quente e frio, o bom e o mau, o amor e o ódio, a ambição e o desprendimento, o rico e o pobre etc… Opostos que são complementares para a composição do todo que se apresenta diante de nós.

Primavera Editorial: Em As Duas Faces da Abóbora, você diz que vivemos em um mundo de ação e reação; causa e efeito. Um outro conceito utilizado é o de “partículas inteligentes”. O que vem a ser cada um deles e qual a importância desses conceitos na construção da obra?

Caco Porto: A terceira Lei de Newton, da ação e reação, diz que quando um corpo material A exerce força sobre um corpo material B; o corpo B exerce também uma força sobre A na mesma linha da ação, mas em sentido contrário. Portanto, quando a bola branca bate na bola preta em uma tacada de um jogo de sinuca, a bola preta reage à ação da bola branca, devolvendo para ela a mesma forca recebida. Como resultado – ou efeito do deslocamento da bola preta, cuja causa foi o impacto da bola branca – as bolas azul e amarela são atingidas em sequência a acabam caindo em duas caçapas distintas. Obviamente que esse exemplo não é válido para pessoas, entretanto, a base conceitual da Lei de Newton pode ser aplicada ao comportamento humano e por conseguinte ao comportamento de qualquer sociedade, à medida que, como seres desse universo, somos fisiologicamente preparados para a relação ação versus reação. Nossos sentidos analisam as ações que nos são aplicadas e, após processamento em nosso cérebro, respondemos com a reação que julgamos ser a mais apropriada. Não somos bolas de sinuca, mas elaboramos uma reação de volta, mesmo que seja um simples “bom dia”, uma piscada de olho, um sorriso ou uma cara feia quando alguém se dirige a nós. Ora, se isso é válido para uma pessoa que é uma pequena parte, uma partícula do todo, é válido para todas as estruturas sociais do nosso planeta. Portanto, somos sem dúvida, um mundo baseado em ação e reação, em causa e efeito, por meio das quais sociedades e culturas vêm evoluindo e se transformando em milênios. Bem, se entendemos esse principio básico, teremos condições de entender o que está ocorrendo com a sociedade mundial desde que os provedores de internet começaram a oferecer serviços de acesso e correio eletrônico para as pessoas, as partículas da sociedade. A internet nasceu nos anos 1960 nas universidades americanas como forma de comunicação entre essas instituições e iniciou um crescimento explosivo nos anos 1990, fomentada pelo processo de globalização econômica que precisava de uma rede de comunicação mundial eficaz para operar. Como não existe ação sem reação, nem efeito sem causa, a reação à globalização econômica foi o fortalecimento e expansão da globalização cultural com a miscigenação de culturas pela internet. Na prática, a reação à globalização econômica ocorreu por meio de pessoas (partículas) e grupos que se posicionaram politicamente contrários aos prejuízos causados pela globalização econômica como o desemprego, a eliminação de empresas locais e a perda do poder do Estado. Em meu livro, Kate, Jorge e Tomé representam “partículas inteligentes” de carga elevada, pois possuem alto poder de influência sobre milhares de outras partículas do mundo (pessoas). Eles canalizam forcas de reação contrárias aos problemas causados pela globalização econômica pela forma padronizada como foi apresentada para todos os países. As partículas inteligentes crescem sem parar mundo afora, conectadas aos bilhões entre si. Elas serão capazes de transformar não apenas a economia, mas a política e a sociedade em todo o mundo.

Primavera Editorial: Como foi o processo de construção de cada personagem? Você se identifica, em especial, com alguma delas?

Caco Porto: O processo de construção foi a partir das biografias. Não de todos, mas dos protagonistas da história – Kate, Robert, Jorge e Tomé. Quando um escritor, ou roteirista, detalha a vida de uma personagem desde o seu nascimento, obtém um contorno claro, intenso e bem definido do caráter e comportamento dessa personagem. Para isso a biografia tem que ser rica em informações, mesmo que muitas das informações nem cheguem a fazer parte da história. Sem dúvida, identifico-me com as personagens principais, sendo a maior parte com o pensamento cosmopolita de Jorge e Kate. Não sou matemático como o Jorge, mas quando tinha 12 anos e morava em São Gonçalo, município da região do Grande Rio, frequentava a escola no período da manhã e, à tarde, brincava na rua Aloísio Neiva, onde moravam meus avós maternos Halim e Anita. A rua era de terra batida e ficava salpicada de crianças como eu, todos descalços e imundos – uma mistura de suor misturado à poeira – de tanto que corríamos e brincávamos. A maioria de nós possuía um estilingue feito de galhos de goiabeira e tiras de borracha de câmaras de ar de pneus. Mesmo tendo um estilingue nunca matei um passarinho.

Primavera Editorial: Um dos aspectos mais interessantes do livro é o debate – via narrativa ficcional – de temas muito atuais e extremamente pertinentes como a globalização tecnológica e novas regras para a economia mundial. Por que a opção por esses temas? Caco Porto: Comecei a escrever esse romance no final de 2002 e, como disse, ainda absorvíamos as ondas de choque do estouro da bolha da internet e o atentado ao World Trade Center. Os processos de globalização – econômica, tecnológica e cultural – já se encontravam em andamento com um número de pessoas utilizando a internet crescendo exponencialmente. Eu queria uma mensagem forte e real como pano-de-fundo de uma história que envolvesse o leitor pela identificação que ele pudesse ter com ela. Assim, olhando para o mundo, percebi que estávamos em franco processo de mudanças e que tais mudanças impactavam diretamente na vida das pessoas. Optei por esses temas a partir dessa análise que fiz. Hoje, sete anos depois que a história foi elaborada, surpreendemos-nos com o grupo das 20 maiores economias do mundo (G20) se reunindo em Londres para mudar as regras da economia globalizada – como Jorge previu que aconteceria ao longo do primeiro quarto do século 21, com seu modelo de simulação baseado no comportamento das partículas inteligentes. Como não existe ação sem reação nem efeito sem causa, o Bumerangue Neoliberal retorna com a mesma força para sua casa, depois de lançado para o mundo. Como será que farão o próximo lançamento? Bem, creio que agora os lançadores pensarão com muito mais afinco antes de fazê-lo.

Entrevista: Edna Bugni

O universo feminino e as histórias comuns às mulheres de sua geração serviram de inspiração à médica ginecologista Edna Bugni, autora do livro Solstício de Verão. Estreante na literatura, Edna Bugni escolheu o gênero romance para dar vida às inúmeras histórias ouvidas e vivenciadas em anos de consultório. Como resultado, uma obra singular que mostra nitidamente o talento da autora em construir personagens densas, forjadas no cotidiano das mulheres brasileiras. Saiba mais sobre a autora nessa entrevista para a Primavera Editorial.

Primavera Editorial: Por que o título Solstício de Verão?
Edna Bugni: A astronomia usa a palavra solstício para designar a posição do Sol no momento em que o astro-rei se encontra em determinado ponto. Mais do que isso, refere-se a uma posição exata. Solstício é uma sofisticada alegoria da qual lanço mão para contar uma saga feminina multifacetada, repleta de arquétipos primitivos, contemporâneos e pós-modernos que têm origem na geração que viveu, intensamente, o Brasil de 1968, marcado por manifestações estudantis, protestos contra o regime militar e profundas mudanças no cenário político e social. No romance Solstício de Verão, a mudança de comportamento saboreada pelas mulheres dessa “safra” desemboca nos dias atuais em personagens que compõem o retrato feminino de um Brasil de muitas faces. Nessa obra, apresento o cotidiano de protagonistas muito próximas a mulheres reais – fêmeas que lidam de diferentes formas com a maternidade, a sexualidade, as escolhas, os sucessos e as “pequenas-tragédias-pessoais”.

Primavera Editorial: De onde surgiu a inspiração?
Edna Bugni: A inspiração veio da estreita convivência com o universo feminino e nas histórias comuns a mulheres da minha geração. Como médica, especializada em saúde pública e ginecologia, recriei com palavras as inúmeras histórias ouvidas e vividas em anos de consultório. Ou seja, são histórias de mulheres e do impacto das transformações sociais da década de 1960 sob elas.

Primavera Editorial: Ouvir e contar essas histórias mudou a sua visão da alma feminina?
Edna Bugni: Eu também fiz a minha história nesse período. Tenho 56 anos e acompanhei todas as transformações como trabalhar fora, o divórcio, o anticoncepcional. Tudo isso eu senti na pele e posso notar que com o passar dos anos, o movimento feminista tem amadurecido cada vez mais, inclusive, perdeu muito do impacto inicial, da mulher indignada – que era necessário – para construir uma atuação alinhada com as novas demandas da mulher contemporânea.
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Entrevista: Claudia Aldana

Como as mulheres chilenas lidam com a “solteirice”?
Acho que as mulheres chilenas são mais complicadas do que a maioria das mulheres. Há um monte de neuroses sobre os homens e é por isso que estamos em um estado de solteirice terminal ao completar 25 anos… Talvez este seja um problema de intensidade, em vez de excesso de experiência. Por ser tão conservadora a sociedade chilena, quem chega aos 25 e continua solteira se transforma em “assunto” recorrente. A maioria das mulheres chilenas começa a se comprometer seriamente ainda na universidade, por isso, a solteira de 25 anos já é vista como desesperada. Os homens, evidentemente, já estão habituados a lidar com essa ansiedade que exalamos com o tema compromisso. Somos especialistas em pedir aos gritos que os homens “batizem” a relação de alguma forma para sabermos qual é o status do romance, porque gostamos de falar em “nós” (nós vamos ao cinema, nós gostamos do restaurante). E talvez por isso, eles optem por sair com mulheres mais novas, criando um círculo vicioso. Acho que no Chile a igualdade entre os sexos está avançando no campo sociopolítico, pois temos  uma mulher na presidência… Porém, no terreno sentimental segue sendo um mundo de homens.

Como você avalia a mulher brasileira se comparada com a chilena?

Acho que as mulheres chilenas ainda têm problemas de confiança. Por exemplo, a brasileira atrai (e nos intimida), porque sabe quem é – e o que tem ao seu favor. Nós, chilenas, somos mais inseguras; tentamos mais agradar do que ser agradadas. Talvez porque a nossa sociedade é mais rígida e nos ensina o que devemos ser – uma gueixa para que os homens queiram você. Não valorizam o que desejamos ser!  Acredito que isso seja uma questão de geração. As mulheres com menos de 25 anos são mais livres nesse aspecto. É por isso que muito se fala do fenômeno da juventude “pokemon” – descrita em reportagens publicadas pelo The New York Times e  The Guardian – caracterizada pelo despertar sexual precoce, o que as distingue das gerações anteriores. Em relação a Carrie, se você ver a série Sex & The City, percebe que ela é muito mais aberta para as questões da sexualidade feminina, mas nas colunas de Consuelo Aldunate, é tratada a afetividade, a questão emocional, os emaranhados que cada mulher constrói. Consuelo valoriza mais esses aspectos do que os pormenores da cama. Acredito que querer falar de relacionamentos, mas acima de tudo a partir do ângulo sentimental, é uma diferença marcante entre as “colegas” solteiras de outros países. Talvez por isso mesmo Consuelo Aldunate seja mais próxima do modelo de Helen Fielding (Bridget Jones), pois trata-se de mulheres mais racionais do que mulheres de ação. Nós ficamos no planejamento, na teoria, e nos perdermos na ação.

Acreditamos que a mulher moderna, independente e inserida no mercado de trabalho, não tem o homem como prioridade. No entanto, Consuelo, Bridget, Carrie parecem provar o contrário. Você acredita que o homem e a formação de uma família ainda sejam elementos fundamentais para a mulher?
Acho que existe discurso dúbio por parte das mulheres. Essa posição de independência emocional, essa arrogância do “eu não preciso de um homem” é um discurso que fomos construindo para nos manter na defensiva dos fracassos amorosos. Acho que as mulheres são exageradas – se temos que ser independentes, vamos ao extremo absoluto de declarar que não precisamos de um homem. E ai está a mulher masculina, aquela que não somente convida o homem que a interessa para sair, como também paga a conta, leva-o de carro ao seu apartamento. No entanto, apesar desta posição de distanciamento, a mulher masculina vai querer que o homem ligue no dia seguinte para convidá-la para ir ao cinema ou fazer algo. De qualquer forma, acho que a mulher busca um homem, quer ter um  parceiro com quem partilhar a vida. Isso não significa que é uma mulher dependente! Também querer que o outro preencha todas as suas expectativas e que te faça feliz sem que você tenha que fazer nada, é um erro. As mulheres que procuram casamento como a única finalidade da vida causam-me curiosidade. O que eu quero encontrar (e Consuelo também) é um amor que move o chão, que te transforma, que traz à tona todas as emoções que temos no coração. Se isso chega a se tornar um projeto de vida, ok. Mas, quando conheço um homem não imagino como vão ser os nossos filhos. Uma coisa é ser solteira e outra muito diferente é estar com o estado civil de desesperada.

Como é ser solteira nos dias de hoje?

Acredito que haja glamour em ser solteira! Acho que atualmente ser solteira é um status fashion, ou seja, já não existe o estigma da solteirona. Hoje, a solteira com mais de 30 anos é vista como uma mulher que tem o mundo em suas mãos; um mundo cheio de opções. São mulheres que não se contentaram em ficar com o primeiro amor que apareceu e que têm tempo e dinheiro – não precisam sustentar os filhos – e podem se dar mais presentes, sair com os amigos, viajar para fora, desfrutar desses anos de adolescência estendida. Além disso, os amigos estão se tornando substitutos do namorado e até mesmo da família. Escolhemos essas pessoas que nos acompanham na vida e por isso mesmo damos a eles o nosso tempo. Eles são pessoas que têm os mesmos interesses, medos e sonhos, em contrapartida, a família tem o papel de questionar essa decisão de não formar uma família. Assim, é evidente que por comodidade e afinidade, tornamo-nos mais íntimas dos amigos.

De onde vem a inspiração para os artigos? Trata-se de uma obra autobiográfica?

A vida de Consuelo é totalmente dela! Quando comecei com a coluna, eu tinha 26  anos e estava solteira, mas não angustiada. Não escutava o meu relógio biológico,  que hoje toca tão forte quanto o Big Ben! A vida que comecei a escrever era a de uma mulher mais velha, com mais recursos financeiros, com mais glamour –  diferente da minha, uma jornalista em início de carreira. Não conhecia pessoalmente muitos dos lugares que mencionava nos artigos. Quando Consuelo vai ao Brasil, por exemplo, descrevo a visita à praia; eu estive em São Paulo, em 2005. Há outros lugares mencionados que conheço, como Tulum – um lugar mágico para mim e que, se pudesse, voltaria todos os anos. Achei uma boa idéia incluir na história um romance de verão com um marco tão fantástico! Acredito que Consuelo tem mil razões para ficar presa a esse lugar e às lembranças de amor. Em contrapartida, as inspirações das colunas são pessoais, embora não conte muito sobre a minha vida. Nas colunas, disfarço um pouco a inquietude das amigas – acho que afinal já tenho uma idade próxima à da coluna, cheguei aos 33 anos. Os rolos das mulheres da minha geração são o que tenho na cabeça! Sempre tenho o cuidado de disfarçar bem as histórias para não causar danos colaterais a inocentes. Se não, vou ficar sem amigas e sem material para escrever!

Você está namorando ou é casada?
A minha experiência de matrimônio é mais engraçada que trágica. Quando fazia um ano que escrevia a coluna e meu livro estava na moda aqui no Chile, convidaram-me para um evento de “encontros rápidos”, esses que trocam a pessoa que está à sua frente a cada sete minutos. Uma dessas pessoas foi Jorge – que achei muito bonito e interessante – mas, para ser honesta, que não me deu bola. Depois de terminado esse encontro, o lugar se transformava em uma pista de dança. Cheguei perto, conversarmos e dançamos a noite inteira, mas na hora de ir embora, Jorge nem sequer pediu meu telefone. Uma semana depois me mandou um e-mail e eu quase morri! Saímos três vezes para jantar e, na mesma semana – era a quarta saída – fomos viver juntos. Foi um grande escândalo na minha família. Pensaram que eu estava louca – pelo risco de viver com alguém que se conhece pouco. No contexto da sociedade, o Chile continua a ser muito conservador e, por isso, sempre se diz “meu marido”. Dizer “meu amante” era um pouco chocante. Tratei de manter essa parte da minha vida escondida para que ninguém soubesse, mas essas coisas, sempre se sabe!

Depois de três anos de convivência nos separamos. E foi muito traumático, como todo término de casamento. Talvez por isso sempre exigi o status de separada, porque passei pela mesma experiência de uma mulher casada, mas sem assinar papéis. Terminei “divorciada” e – o pior, o que mais me traumatizou – senti que a minha vida estava se tornando a vida de Consuelo! Isso porque no dia em que mudei para o novo apartamento, com minha cachorrinha Coca, estava sentada no chão, tomando uma vodka vanilla, quando me dei conta que naquela semana completaria 31 anos. A maldição de Aldunate! Gritei apavorada. Às vezes, tenho medo que de tanto escrever sobre solteiras, termine solteira para sempre. Mas, isso o tempo dirá! Atualmente estou comprometida. No meu aniversário de 33 anos recebi um anel de compromisso do meu atual namorado, com quem estou há um ano… Como podem ver, sou um pouco intensa e apaixonada. Gosto de ser kamikaze. E voltaria a cometer todos os erros novamente….

Sobre sua pergunta de escrever sobre mulheres solteiras e se sempre estou acompanhada… creio que seja porque, no coração, sempre senti que sigo sozinha. Quando estava vivendo a dois, sentia falta da minha vida independente. Agora, com Raul (meu namorado), escrevo sempre para manter o equilíbrio – se estou bem com ele, Aldunate está mal com seus namorados. Assim, não fico louca!

Você já viveu alguma das aventuras da personagem?

As aventuras de Consuelo Aldunate são as aventuras de qualquer mulher de trinta e poucos anos! Talvez eu não tenha vivido como ela, mas devo confessar que vivi mais romances do que eu gosto de  reconhecer publicamente. O que posso fazer, o amor é o meu vício! Os homens são a minha preocupação permanente… e acho que acontece com todas as mulheres a mesma coisa. Da mesma forma que eles sempre gostam de conversar sobre futebol, as mulheres sempre têm por tema “relacionamentos”; esse é o ponto de partida das conversas femininas.

Você acha que toda mulher procura um homem, ou elas podem muito bem ser felizes sozinhas?

Acho que reconhecer essa busca pelo amor é o mais saudável que podemos fazer!
Pendurar o cartaz de disponível permite a você encontrar alguém; além disso, acho que nós mulheres exageramos na questão da independência, pensamos que ser independentes é não precisar de um homem. Para mim, ser independente é ser capaz de ser feliz sozinha, realizar-se profissionalmente; no âmbito familiar, ter muitas amigas e saber estar acompanhada. Mas, tudo precisa de uma medida certa, de um equilíbrio.

Quais as diferenças e semelhanças entre a Claudia Aldana e a Consuelo Aldunate? O que uma poderia aprender com a outra?

Consuelo Aldunate é mais reflexiva. Eu sou mais atirada – se quero algo, atiro-me! Prefiro me recuperar de uma má decisão do que dizer “o-que-teria-acontecido-se-eu- tivesse-feito”. Estou à procura de certezas; Consuelo pensa muito. Pode ser um erro ou um acerto, mas isso é o que mais nos diferencia.

Existe diferença entre as solteiras latino-americanas e as solteiras dos EUA ou de outras partes do mundo? Elas se comportam de formas diferentes ou pensam de maneiras distintas? Têm outros anseios?

Acredito que as solteiras são iguais em qualquer parte. Pode ser que cada uma ponha diferentes máscaras para falar sobre o assunto: algumas posam de independentes –
as argentinas, por exemplo, parecem não necessitar, nem querer um homem ao seu lado –, outras são mais neuróticas. Nós chilenas, por exemplo, somos terrivelmente complicadas com o amor! As brasileiras são mais lúdicas para enfrentar o tema, acredito eu. O amor é algo universal. Sofremos por amor calçadas com sapatos Bata ou com Prada, ou seja, não faz diferença, o sofrimento é o mesmo! O coração bate igual em todos os lugares e nisso está o êxito de todos esses temas. O que gosto de Consuelo é que ela é uma idealista, quer um amor perfeito e essa é a sua grande fraqueza. Ela vai levar a vida buscando, ou talvez, aprenda a duras penas que o Príncipe Encantado já se casou com a Gata Borralheira.

Dê cinco dicas para as solteiras se divertirem enquanto não encontram o homem certo.

1.    Dar-se de presente um dia inteiro em um spa! Fazer as mãos, os pés, massagens de relaxamento… somente por prazer. Não para que “ele” veja que você está linda, mas como um presente pessoal. E se quiser, vá com uma amiga. Acho muito melhor!!!

2.    Comer na cama. Quando você mora com alguém ou tem namorado vive a situação de conquista. Ou seja, há certas coisas que deixamos de fazer por serem pouco sedutoras. Um programa imperdível é passar um sábado com o controle remoto, vendo filmes românticos – aqueles água-com-açúcar –, pedir comida delivery… enfim se dar uma festa de sentimentos!
3.    Passar três horas ao telefone com uma velha amiga. Comentar até o que comeu na última semana sem sentir o olhar de censura de seu companheiro… aquele olhar que diz “deverias conversar comigo”. Colocar a fofoca em dia com as amigas é um luxo que nunca é demais se permitir.

4.    Dar-se de presente um romance passageiro em suas férias. Quem sabe, sair do país e ter essas histórias tórridas e apaixonantes das séries de tevê. E isso sem pensar nas conseqüências ou no que irá acontecer quando as férias terminarem. Esse tipo de romance libera tensões, melhora a pele e faz tão bem para o ego! E, se tiver sorte, ainda aprendemos um outro idioma!

5.    Fazer compras. Quando estive em São Paulo senti um prazer indescritível em uma loja chic de calçados. Bolsas, sapatos e outros acessórios se transformam em objeto de culto que enchem de orgulho – como os que sentem os pais em relação aos filhos! Há algo mais gratificante do que ter uma bolsa que ninguém mais tem e que sempre provoca suspiros?

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