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Entrevista: Luis Eduardo Matta

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Primavera Editorial: Você começou a escrever cedo, aos 17 anos. Como foi esse “despertar” para o ofício de escritor?
Acima de tudo, inesperado. Eu assistia a uma entrevista de Jorge Amado e Zélia Gattai na televisão, quando, um desejo muito forte de escrever se apoderou de mim repentinamente, e nunca mais me largou. Era o fim da noite de 20 de janeiro de 1992, uma segunda-feira. Lembro-me daqueles momentos como se tivessem acontecido outro dia. Passei a madrugada do dia 21 em claro, anotando ideias freneticamente em um caderno de pautas; já na manhã seguinte, estava às voltas com a redação do meu primeiro thriller, Conexão Beirute-Teeran, que ficou pronto em abril. Fui contratado por uma editora em setembro, e lancei em maio do ano seguinte, quando eu já estava com 18 anos. Essa paixão pela escrita permanece, hoje, tão forte quanto naquela época.

Primavera Editorial: Os seus livros têm o Oriente Médio como um dos cenários. Por que essa escolha?
Por várias razões. Uma delas é que tenho ascendência libanesa pelo lado paterno. Isso, é lógico, foi determinante. O que mais me atrai no Oriente Médio até hoje, no entanto, é a sua riqueza histórica e cultural e, principalmente, as suas inúmeras contradições. Todos os países que compõem a região apresentam contrastes fascinantes. Além disso, é uma zona turbulenta, onde há muitos interesses em jogo e conflitos que parecem não ter fim. Um cenário perfeito para um thriller.

Primavera Editorial: Qual foi a inspiração para escrever O véu?
Quando terminei de escrever 120 horas, em abril de 1999, eu tinha três certezas sobre o romance seguinte: seria uma história diferente das que eu tinha escrito, teria cenas em um país do Oriente Médio que não fosse Líbano, Síria ou Israel – que serviram de ambientação para os meus dois thrillers anteriores – e suas principais personagens seriam mulheres. Numa tarde, conversando sobre o mercado de arte com um tio que era leiloeiro em São Paulo, percebi que esse seria um bom cenário para o livro e tive a ideia de focar a trama em um quadro intrigante, misterioso, até mesmo diabólico. Daí passei a frequentar leilões de arte e galerias, a conversar com marchands e leiloeiros, a comprar revistas especializadas e a estudar mais sobre o assunto. O livro começou a ser escrito em setembro daquele ano e eu só o concluí, de fato, em junho de 2009 – praticamente dez anos depois e após tê-lo reescrito algumas vezes.

Primavera Editorial: O que diferencia um thriller dos outros gêneros?
Acima de tudo, o suspense e algum nível de conflagração. Ambos são elementos imprescindíveisem um thriller. Todo o resto, embora tenha sua importância, é coadjuvante. O thriller é um tipo de ficção que se vale da capacidade de despertar curiosidade, tensão, ansiedade, terror e emoção no leitor para seduzi-lo a atravessar toda a história.

Primavera Editorial: Como é o seu processo de criação? Você tem uma rotina para escrever?
Preciso ter, porque sou naturalmente disperso e com uma tendência à indisciplina. Então, me obrigo a escrever por um número de horas diárias, todos os dias, inclusive nos finais de semana. Como me ocupo, simultaneamente, de literatura para adultos e para adolescentes, estabeleço horários definidos para ambas. Mas tem dias em que as ideias não saem de jeito nenhum, e, aí, prefiro não forçar e gasto meu tempo com outras coisas.

Primavera Editorial: O que é, na sua opinião, ser escritor?
No meu caso, é uma forma intensa de existir e parte fundamental da minha identidade. Eu já era escritor com livro contratado quando, aos 18 anos, ingressei oficialmente na vida adulta. A literatura foi uma benção na minha vida. Ela está tão impregnada em mim, que já não sou capaz de dissociar o Luis Eduardo homem do Luis Eduardo escritor.

Primavera Editorial: Como definiria a sua obra?
São, basicamente, romances brasileiros de suspense e mistério para os públicos adulto e juvenil. Ao escrever, procuro valorizar a nossa língua, mas sempre com a preocupação de manter uma linguagem clara, fluida.

Primavera Editorial: Como foi o processo de construção de cada personagem? Você se identifica, em especial, com alguma delas?
A construção das personagens é uma das coisas mais fascinantes na criação de um livro. Eu lido com as minhas personagens quase como se fossem pessoas vivas. Nossa relação, contudo, é ambígua. Ao mesmo tempo em que me sinto muito ligado a elas, procuro guardar um distanciamento. Minhas personagens não são, de maneira alguma, alter-egos meus. São, isso sim, um somatório de pessoas que conheci na vida real e na ficção. A vida das outras pessoas me interessa muito mais do que a minha. O cotidiano, mais do que a própria literatura, é a minha maior fonte de inspiração.

Primavera Editorial: Qual foi o livro que “transformou a sua vida” e o incentivou a exercer o ofício das letras?
Essa é uma pergunta difícil. Um livro que certamente me transformou foi o primeiro que li, pois me despertou a paixão pela leitura. Ele pertencia à antiga série da “Inspetora”, escrita por Ganymedes José, que acabei lendo toda. Já o estímulo à escrita veio, mais do que dos livros, de uma necessidade de exteriorizar um mundo interior que pulsava inquieto dentro de mim e pedia para ser libertado.

Primavera Editorial: Você tem algum escritor que o influenciou?
Agatha Christie foi, sem dúvida, uma influência marcante. Embora meus thrillers não sejam policiais.

Primavera Editorial: O que você está lendo atualmente?
Sou eclético nas minhas leituras. Nunca torci o nariz para nenhum tipo de literatura. Costumo ler vários livros ao mesmo tempo. Neste momento, estou conciliando a leitura de três ótimos thrillers – um francês, um espanhol e um argentino – com a releitura de Os sertões, de Euclides da Cunha.

Primavera Editorial: Qual é o “conselho” que daria aos novos escritores?
Tenham paixão pela escrita, em primeiro lugar. Cultivem a paciência, pois as coisas nesse meio costumam ser muito demoradas. Sejam autocríticos, desconfiem permanentemente do próprio talento e perseverem. A perseverança é nossa grande aliada, é ela que abre portas que parecem lacradas. E, acima de tudo, controlem o próprio ego. A vaidade exacerbada é uma das maiores inimigas de um escritor, pois faz com que ele se dê uma importância excessiva, uma importância que ele não possui. Devemos lutar contra a nossa vaidade todos os dias. Ela pode devorar a nossa alma e nos transformar em criaturas ridículas e detestáveis.

Primavera Editorial: O que vem a ser o movimento da “Literatura Popular Brasileira” que você defende?
Não é bem um movimento. Eu nem tenho competência para capitanear um movimento literário. A “Literatura Popular Brasileira” é uma proposta aberta a todos os escritores, sobretudo os iniciantes, que se originou de uma percepção minha em relação à nossa literatura. Temos, historicamente, uma carência de literatura de entretenimento feita por brasileiros. Mas isso começa a ser revertido. Já há autores escrevendo nesta linha, em diferentes gêneros. Alguns com obras muito boas.

Primavera Editorial: Quais são, então, as dificuldades para a criação dessa “Literatura Popular Brasileira”?
Basicamente, a falta de tradição de uma literatura de entretenimento no Brasil. A nossa literatura, que é extraordinária sob vários aspectos, é tratada por muitos escritores com uma solenidade excessiva. Produzir profissionalmente uma literatura popular no Brasil é, de certo modo, romper com essa tradição e muita gente não se sente capaz de fazer isso. Por outro lado, há escritores que, simplesmente, copiam de forma rasteira a ficção de gênero estrangeira, sobretudo em países onde ela está mais consolidada, como os Estados Unidos. A nossa literatura de entretenimento deve ter identidade própria. Já li, por exemplo, resenhas e depoimentos de leitores que diziam que eu pretendia ser um Frederick Forsyth brasileiro. Eu nunca tive essa intenção. Quem afirmou isso, não sabia o que estava dizendo.

Primavera Editorial: Você acha que as editoras brasileiras não atuam de forma a valorizar esse surgimento da “Literatura Popular Brasileira”?
Algumas atuam. Mas, a literatura de entretenimento é uma vertente que ainda está se consolidando e o novo sempre atrai desconfiança. Além disso, ainda somos poucos autores produzindo obras nessa linha. Com os anos, esse panorama tende a mudar. Tudo tem seu tempo para acontecer.

Primavera Editorial: Você acredita no poder transformador da literatura?lematta09.2009_ 227(1)
Totalmente. Eu sou um exemplo de alguém transformado pela literatura. A leitura abre para nós um horizonte vasto, fantástico, de infinitas possibilidades. Ler um livro é sempre uma aventura existencial. A literatura é um espelho crítico da realidade, que a reflete de forma amplificada. Ao me confrontar com tantos mundos, com tantas maneiras de pensar e de existir, expostas nas histórias que li, me tornei mais ciente da multiplicidade da vida e, portanto, mais humilde e humano. Posso afirmar, com segurança, que a literatura me fez uma pessoa melhor.

1 Comentário»

[...] Borges, publicada no Portal Digestivo Cultural, na qual ele fala sobre seu novo romance; – Leia entrevista do autor à Primavera Editorial, pode onde sai seu novo [...]


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