Blog da Primavera Editorial

Lançamentos, artigos e notícias sobre a Primavera Editorial

GILBERTO ABRÃO, UM ESCRITOR QUE RETRATA A COMUNIDADE ÁRABE EM PALAVRAS

Aos 10 anos, Gilberto Abrão foi enviado ao Líbano pelos pais para estudar o idioma árabe e aprender mais sobre a cultura e a religião muçulmana. Educado em dois mundos distintos – o árabe e o brasileiro – o autor usou sua história de vida para transpor para o papel a trajetória fictícia de Mohamed, um jovem imigrante sírio que chega ao Brasil no início do século passado. O “namoro” de Abrão com a literatura começou na década de 1970, quando passou a escrever contos e crônicas para o jornal Zero Hora e se consolida quatro décadas depois com o lançamento do livro da Primavera Editorial, que promete encantar leitores ávidos por informações sobre a presença da comunidade árabe no País. Embora seja uma obra de ficção, há muito de vida real em Mohamed, o latoeiro.

“Segundo meu pai, o fato de eu ter nascido durante a Segunda Guerra Mundial justifica a minha rebeldia e falta de juízo”, conta Gilberto Abrão, que foi educado em um bairro simples de Curitiba, habitado por imigrantes poloneses, ucranianos, italianos, alemães e alguns sírio-libaneses. “Voltei do Líbano aos 14 anos, fui estudar à noite e trabalhar durante o dia. O colégio não tinha boa fama, pois aceitava alunos já crescidos, rejeitados ou expulsos de outras escolas. No entanto, o prédio anexo à escola abrigava a Faculdade de Direito de Curitiba, onde acompanhei brilhantes conferências de renomados intelectuais e políticos de diferentes vertentes e posições partidárias, das décadas de 1950 e 1960”, detalha o autor.

Rato de biblioteca, Gilberto Abrão leu os grandes clássicos da literatura nacional e mundial – de Machado de Assis a Franz Kafka – além velhos jornais de Angola e Moçambique. Em 1962, o autor se alistou como voluntário das Forças de Emergência das Nações Unidas para guarnecer as fileiras de soldados que atuavam na fronteira entre o Egito e Israel. Por ser fluente em árabe e inglês permaneceu por 14 meses na Faixa de Gaza. Apaixonado por uma gaúcha, retornou ao Brasil em janeiro de 1965 para lecionar inglês em uma grande escola de idiomas. No ano seguinte, após obter o licenciamento para abrir uma franquia dessa escola de inglês, migrou para a cidade de Novo Hamburgo (RS). No início da década de 1970 iniciou o “namoro” com a literatura ao colaborar com o jornal Zero Hora, no qual publicava crônicas e contos na coluna Sol e Chuva. “Até me aventurei a tecer comentários políticos e tive a honra de ser censurado pela direção do jornal, que nessas ocasiões colocava anúncios em substituição à coluna”, conta.

Amigos – entre eles a professora Juracy Saraiva, mestre e doutora em literatura – desde 1983 insistem para que Gilberto Abrão escreva um livro. Dividido entre “ganhar dinheiro ou fazer literatura”, sempre escolheu a primeira opção. “Por conta de uma cirurgia no joelho, que me obrigou a ficar 40 dias em casa, decidi aceitar a sugestão da minha esposa e iniciar um livro. Comprei um notebook e comecei a escrever Mohamed, o latoeiro”, afirma, acrescentando que ainda continua dando as aulas de inglês.

Saiba mais sobre o novo autor da Primavera Editorial nessa entrevista exclusiva.

GilbertoAbrao
Primavera Editorial: Qual foi a inspiração para escrever Mohamed, o latoeiro?
Gilberto Abrão:
Quando eu era criança e mesmo na adolescência, ouvia as histórias contadas pelos velhos imigrantes árabes que se reuniam na Praça Tiradentes ou nos cafés da Rua XV, em Curitiba. Eles falavam de seus problemas, dos encontros e desencontros; das perplexidades com a cultura da nova pátria, as aventuras nesse interior do Brasil como mascates, seus amores e desamores, alegrias e tristezas. Nos fins de semana, visitavam-se e se reuniam em uma autêntica sessão de nostalgia: cantavam, dançavam e lembravam da terra e dos parentes que tinham abandonado. A maioria jamais voltou aos seus países. Portanto, achei que essa comunidade de imigrantes tem histórias extremamente ricas para serem contadas.

Primavera Editorial: Como é o seu processo de criação? Você tem uma rotina para escrever?
Gilberto Abrão:
Primeiramente, preciso da ideia central. Isso é o mais importante para mim. No caso do meu romance de estreia, “Mohamed , o latoeiro”, surgiu a ideia que forma a espinha dorsal da história, ou seja, a vida do herói principal. A partir daí, vou enfeitando o romance como se fosse uma árvore de Natal. Uma bola aqui, uma estrela acolá, flocos de algodão mais adiante… É muito comum modificar a história, escrever e reescrever um episódio várias vezes. Gosto de escrever. Gosto de contar histórias. Então, quando começo, vou a um ritmo só, geralmente escrevendo à noite, quando posso ler em voz alta aquilo que escrevi. Dou muita ênfase ao efeito sonoro da palavra. Nesse momento, por exemplo, já tenho o segundo livro pronto. Estou relendo para ver se precisa de modificações. Não estou escrevendo presentemente, mas já surgiu a ideia central do terceiro livro e já sinto coceira no cérebro.

Primavera Editorial: Por que optou, em sua estreia na literatura, por um romance?
Gilberto Abrão:
Poderia ter começado com um livro de contos, mas não teria o mesmo impacto – eu acho – do que um romance como “Mohamed, o latoeiro”. Acho que se você é novato no ofício, o primeiro livro tem que chamar a atenção do público e da crítica de alguma forma. Um romance que conta a saga de alguém, como é o caso desse, vem bem à feição. Sou ambicioso demais para ser lançado com um livro de contos. Talvez mais tarde eu ponha no meu projeto um livro de contos; matéria-prima para isso, eu tenho aos montes.

Primavera Editorial: Fale um pouco sobre a emoção de publicar um livro pela primeira vez? Como o livro foi selecionado pela Primavera Editorial?
Gilberto Abrão:
A emoção é indescritível! Não estou acreditando ainda; parece que não sou eu. Parece que o Gilberto Abrão escritor é outro cara. Desde que a Primavera Editorial decidiu publicar a minha obra, eu ando nervoso, excitado, impaciente, ansioso, feliz. Curo um herpes de fundo nervoso no nariz, para logo em seguida nascer outro, tamanha é a tensão. É uma excitação incomparável! Na verdade, quando enviei os originais para a Primavera Editorial, tinha terminado quase um ano antes. Já tinha enviado para uma grande editora do mercado. Eles gostaram da obra, fizeram rasgados elogios e prometeram publicá-la. Passou-se quase um ano e eles permaneciam dando um “chá de banco” – sempre me engambelando com promessas. Não aguentei mais! Seguindo o conselho de um amigo crítico literário, mandei a obra para a avaliação da Primavera Editorial. A resposta veio em menos de um mês. Da aprovação da obra até a assinatura do contrato foram uns dois meses. Vapt-vupt! A Primavera é ágil e eu gosto de gente ágil.

Primavera Editorial: O que é, na sua opinião, ser escritor?
Gilberto Abrão:
Um escritor é simplesmente aquele que retrata a sua comunidade com palavras. Daí a importância delas, as palavras. Ele tem um enorme compromisso com o povo de sua aldeia e com a sua língua. Mas, acima de tudo, deve sempre se lembrar de que é um contador de histórias. E o objetivo maior deve ser contar uma história, seja com um pesado conteúdo sociofilosófico, dramas existenciais, personagens com complexas características psicológicas ou, simplesmente, uma história gostosa de ser lida, sem maiores ambições; apenas para entreter o leitor.

Primavera Editorial: Como definiria a sua obra?
Gilberto Abrão:
Uma saga que embora leve, não se dissipa. Veio para ficar; não vai desaparecer logo ou ser esquecida. Narro a vida de um imigrante árabe – suas mazelas, alegrias, sofrimentos, derrotas e vitórias. A maioria dos personagens é árabe, portanto, a linguagem utilizada na obra é cultural e emocionalmente árabe. O leitor vai estranhar, a princípio, o modo de uma personagem cumprimentar a outra, de falar com ela; vai notar também o forte impacto da religião nas interações das pessoas. Sintetizando, é uma história árabe, com tudo que a expressão possa carregar em si de emocional, cultural e linguístico, só que narrada em português.

Primavera Editorial:Como foi o processo de construção de cada personagem? Você se identifica, em especial, com alguma delas?
Gilberto Abrão:
Cada personagem tem um pouco das pessoas verdadeiras que eu conheci na minha infância – seus dramas íntimos e idiossincrasias. Segui a receita mais comum na construção de uma história, tem o herói e tem o vilão; o bom e o mau. Mas nem sempre o herói faz o bem e nem sempre o mau caráter faz o mal. De vez em quando, os papéis se invertem. E tem a mocinha, naturalmente, que será identificada logo nas primeiras páginas, pela simpatia que vai exercer sobre o leitor.

Primavera Editorial: Qual foi o livro que “transformou a sua vida” e o incentivou a exercer o ofício das letras?
Gilberto Abrão:
São vários os livros que me incentivaram a escrever. Não seria justo mencionar só um. Desde pequeno eu sempre gostei de ler. Lia de tudo, de gibis a aventuras de Julio Verne. De jovem-adulto à maturidade, li muitos livros. Mas vou mencionar alguns que realmente deram um empurrão: Guerra e Paz, de Leon Tolstói; Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado; e Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez.

Primavera Editorial: Você tem algum escritor que o influenciou?
Gilberto Abrão:
De novo, é difícil citar só um. Eu diria que os três que mencionei acima e mais Machado de Assis, Guimarães Rosa, Franz Kafka, Thomas Mann e mais alguns escritores árabes, entre eles, o egípcio Nagib Mahfuz. Tentei absorver o máximo possível desses ícones todos.

Primavera Editorial: De que modo a experiência como voluntário das Forças de Emergência das Nações Unidas e o fato de ter vivido no Líbano influenciaram a escolha do tema do seu romance de estreia?
Gilberto Abrão:
Uma influência de quase cem por cento, eu diria. A tradição da narrativa oral é ainda muito viva nos países árabes. O árabe gosta de contar histórias, é atávico em sua cultura. Acho que os gaúchos herdaram muito disso pela Península Ibérica. O trabalho nas Forças de Emergências das Nações Unidas foi igualmente importante e influente. Estive na Faixa de Gaza e ali é um caso especial.

Primavera Editorial: Qual é o “conselho” que daria aos novos escritores?
Gilberto Abrão:
Antes de mais nada, o escritor deve viver a vida em toda a sua plenitude. É dela que ele vai extrair toda a matéria-prima para esculpir o seu romance, conto ou poesia. Em segundo lugar, conviver, ler e escrever; escrever e escrever, até que atinja o estágio maior…

3 Comentários»

  solange escrito @

Professor Gilberto :
Seu livro nos transporta no tempo e para lugares ,que sabemos que existiram e existem, tanto na memória de um povo como geograficamente. Felizmente, existem pessoas que não cansam de relatar esses lugares e suas tradições, juntamente com uma das fés maiores do mundo: o Islam. Parabéns, é um livro que prende a atenção. Uma dúvida : na página 56 , fala-se sobre a comemoração do Eid , referindo-se ao Profeta Zeca , não seria o Profeta Abraão ? Acho que foi um equívoco , não?
Mais uma vez, parabéns, uma bela obra. Solange.

  eliane krainski escrito @

Compreensão. Essa palavra sintetiza todos
os sentimentos que tive ao ler seu livro.
O arrebatamento foi intenso da primeira à última página.
Homenagem que passará de geração à geração, impedindo que nossas fontes ancestrais sejam esquecidas.

Um grande abraço,

Eliane Krainski

  Nilza Pereira Crepaldi escrito @

Conhecer outros recantos, outras pessoas, outros costumes é excitante, não importa como, ou seja, se pessoalmente ou por meio da leitura de um livro com uma linguagem simples, direta, concisa e com algumas passagens poéticas como esse de Gilberto Abrão. A mistura de gêneros na obra reforça a capacidade híbrida da linguagem literária de que fala o filósofo Bakhtin. Parabéns, professor!


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.