Primavera Editorial: Qual foi a inspiração para escrever As Duas Faces da Abóbora?
Caco Porto: Acho que a inspiração emergiu naturalmente depois que assisti, como todos nós, aos acontecimentos que literalmente sacudiram o mundo entre os anos 2000 e 2001 – o estouro da “Bolha da Internet”, quebrando empresas e demitindo pessoas, e o atentado ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. Esses eventos geraram enormes ondas de mudança no mundo, sobretudo nos Estados Unidos, pois muitos norte-americanos começaram a olhar para o resto do mundo de modo mais consciente, o que significou uma mudança de postura em relação às culturas e ao planeta. Associado a esses eventos, contribuiu para a minha inspiração a percepção de que as diferentes culturas estavam se amalgamando rapidamente por meio da internet e dos meios de comunicação pela interação de pessoas, grupos culturais e organismos governamentais. Isso representa o nascimento de um “novo mundo”, uma “nova sociedade” em formação, baseada na informação compartilhada e democrática, fazendo força de reação às anomalias do modelo sociopolitico-econômico vigente.
Primavera Editorial: Como é o seu processo de criação? Você tem uma rotina para escrever?
Caco Porto: Meu processo de criação parte de dois pressupostos básicos. O primeiro é que todo o trabalho deve nascer de uma ideia original, nunca antes escrita ou esboçada. O segundo é que a história tem que ter a capacidade de “prender” o leitor à leitura do início ao fim – ou na poltrona do cinema, caso ela seja levada para a tela. Uma vez cumpridos esses dois pressupostos na elaboração e estruturação da ideia original, que veio da inspiração, começo o detalhamento e aprofundamento da história, criando as personagens com suas biografias. Trabalho em um processo top-down para formar a espinha dorsal da história e a mensagem que transmite, da mesma forma com que um pintor esboça primeiro o quadro com lápis-carvão e depois de estruturado vai aplicando as camadas de tinta. Uma vez criada a história – com início, meio e fim – passo a escrever, colocando-me no lugar de cada uma das personagens. Eu me transporto para o universo deles. Eu não tenho uma rotina determinada para escrever. Muito do que escrevo acontece como uma descarga depois de muita introspecção sobre a construção das personagens e da história, às vezes até por meses. Mas, tenho minhas preferências para escrever – entre elas, olhando o mar de Arraial do Cabo, no Estado do Rio de Janeiro. A visão contemplativa do horizonte marinho incita a inspiração de qualquer pessoa.
Primavera Editorial: Por que optou, em sua estreia na literatura, por um romance?
Caco Porto: Optei pelo romance porque permite que a mente do escritor viaje de modo ilimitado, partindo da terra da realidade para os vastos territórios da imaginação. É essa mesclagem, real e ficcional, que é fascinante no processo de criação, pois permite que imaginemos situações singulares que poderiam acontecer na vida real e que surpreendam o leitor, transportando-o completamente para o universo da história.
Primavera Editorial: Fale um pouco sobre a emoção de publicar um livro pela primeira vez.
Caco Porto: Sem sombra de dúvida, trata-se de uma emoção única, que traz um fortíssimo sentimento de realização por ter atingido uma meta importante de vida. Quero continuar criando outras histórias que tenho em mente para literatura e cinema. Escrever, além de dar prazer ao escritor ou roteirista, proporciona a grande chance de transmitir uma mensagem para milhares, milhões ou até bilhões de pessoas. Ou seja, é uma emoção muito grande ter a primeira edição nacional de As Duas Faces da Abóbora trazida ao mercado pelas mãos profissionais de Lourdes Magalhães, presidente da Primavera Editorial.
Primavera Editorial: O que é, na sua opinião, ser escritor?
Caco Porto: Para mim ser escritor é ter a capacidade de olhar para fora de si, ver o mundo à sua volta; perceber, entender e aceitar a enorme diversidade, e extrair da vida real a matéria-prima para tecer histórias únicas que envolvam, entretenham e transmitam uma mensagem central que agregue valor para as pessoas, ainda que em um universo ficcional. Na verdade, a capacidade de olhar para fora de si não se aplica apenas aos escritores, mas a todos nós independente do que sejamos ou fazemos. Olhar para fora e perceber o mundo é reconhecer que somos uma pequena parte dele, uma partícula.
Primavera Editorial: Como definiria a sua obra?
Caco Porto: Trata-se de uma obra contemporânea que tenta retratar uma fatia do mundo atual por meio dos opostos. Esses opostos são, em todos os sentidos, os componentes do universo material do qual fazemos parte – como o dia e a noite, o quente e frio, o bom e o mau, o amor e o ódio, a ambição e o desprendimento, o rico e o pobre etc… Opostos que são complementares para a composição do todo que se apresenta diante de nós.
Primavera Editorial: Em As Duas Faces da Abóbora, você diz que vivemos em um mundo de ação e reação; causa e efeito. Um outro conceito utilizado é o de “partículas inteligentes”. O que vem a ser cada um deles e qual a importância desses conceitos na construção da obra?
Caco Porto: A terceira Lei de Newton, da ação e reação, diz que quando um corpo material A exerce força sobre um corpo material B; o corpo B exerce também uma força sobre A na mesma linha da ação, mas em sentido contrário. Portanto, quando a bola branca bate na bola preta em uma tacada de um jogo de sinuca, a bola preta reage à ação da bola branca, devolvendo para ela a mesma forca recebida. Como resultado – ou efeito do deslocamento da bola preta, cuja causa foi o impacto da bola branca – as bolas azul e amarela são atingidas em sequência a acabam caindo em duas caçapas distintas. Obviamente que esse exemplo não é válido para pessoas, entretanto, a base conceitual da Lei de Newton pode ser aplicada ao comportamento humano e por conseguinte ao comportamento de qualquer sociedade, à medida que, como seres desse universo, somos fisiologicamente preparados para a relação ação versus reação. Nossos sentidos analisam as ações que nos são aplicadas e, após processamento em nosso cérebro, respondemos com a reação que julgamos ser a mais apropriada. Não somos bolas de sinuca, mas elaboramos uma reação de volta, mesmo que seja um simples “bom dia”, uma piscada de olho, um sorriso ou uma cara feia quando alguém se dirige a nós. Ora, se isso é válido para uma pessoa que é uma pequena parte, uma partícula do todo, é válido para todas as estruturas sociais do nosso planeta. Portanto, somos sem dúvida, um mundo baseado em ação e reação, em causa e efeito, por meio das quais sociedades e culturas vêm evoluindo e se transformando em milênios. Bem, se entendemos esse principio básico, teremos condições de entender o que está ocorrendo com a sociedade mundial desde que os provedores de internet começaram a oferecer serviços de acesso e correio eletrônico para as pessoas, as partículas da sociedade. A internet nasceu nos anos 1960 nas universidades americanas como forma de comunicação entre essas instituições e iniciou um crescimento explosivo nos anos 1990, fomentada pelo processo de globalização econômica que precisava de uma rede de comunicação mundial eficaz para operar. Como não existe ação sem reação, nem efeito sem causa, a reação à globalização econômica foi o fortalecimento e expansão da globalização cultural com a miscigenação de culturas pela internet. Na prática, a reação à globalização econômica ocorreu por meio de pessoas (partículas) e grupos que se posicionaram politicamente contrários aos prejuízos causados pela globalização econômica como o desemprego, a eliminação de empresas locais e a perda do poder do Estado. Em meu livro, Kate, Jorge e Tomé representam “partículas inteligentes” de carga elevada, pois possuem alto poder de influência sobre milhares de outras partículas do mundo (pessoas). Eles canalizam forcas de reação contrárias aos problemas causados pela globalização econômica pela forma padronizada como foi apresentada para todos os países. As partículas inteligentes crescem sem parar mundo afora, conectadas aos bilhões entre si. Elas serão capazes de transformar não apenas a economia, mas a política e a sociedade em todo o mundo.
Primavera Editorial: Como foi o processo de construção de cada personagem? Você se identifica, em especial, com alguma delas?
Caco Porto: O processo de construção foi a partir das biografias. Não de todos, mas dos protagonistas da história – Kate, Robert, Jorge e Tomé. Quando um escritor, ou roteirista, detalha a vida de uma personagem desde o seu nascimento, obtém um contorno claro, intenso e bem definido do caráter e comportamento dessa personagem. Para isso a biografia tem que ser rica em informações, mesmo que muitas das informações nem cheguem a fazer parte da história. Sem dúvida, identifico-me com as personagens principais, sendo a maior parte com o pensamento cosmopolita de Jorge e Kate. Não sou matemático como o Jorge, mas quando tinha 12 anos e morava em São Gonçalo, município da região do Grande Rio, frequentava a escola no período da manhã e, à tarde, brincava na rua Aloísio Neiva, onde moravam meus avós maternos Halim e Anita. A rua era de terra batida e ficava salpicada de crianças como eu, todos descalços e imundos – uma mistura de suor misturado à poeira – de tanto que corríamos e brincávamos. A maioria de nós possuía um estilingue feito de galhos de goiabeira e tiras de borracha de câmaras de ar de pneus. Mesmo tendo um estilingue nunca matei um passarinho.
Primavera Editorial: Um dos aspectos mais interessantes do livro é o debate – via narrativa ficcional – de temas muito atuais e extremamente pertinentes como a globalização tecnológica e novas regras para a economia mundial. Por que a opção por esses temas? Caco Porto: Comecei a escrever esse romance no final de 2002 e, como disse, ainda absorvíamos as ondas de choque do estouro da bolha da internet e o atentado ao World Trade Center. Os processos de globalização – econômica, tecnológica e cultural – já se encontravam em andamento com um número de pessoas utilizando a internet crescendo exponencialmente. Eu queria uma mensagem forte e real como pano-de-fundo de uma história que envolvesse o leitor pela identificação que ele pudesse ter com ela. Assim, olhando para o mundo, percebi que estávamos em franco processo de mudanças e que tais mudanças impactavam diretamente na vida das pessoas. Optei por esses temas a partir dessa análise que fiz. Hoje, sete anos depois que a história foi elaborada, surpreendemos-nos com o grupo das 20 maiores economias do mundo (G20) se reunindo em Londres para mudar as regras da economia globalizada – como Jorge previu que aconteceria ao longo do primeiro quarto do século 21, com seu modelo de simulação baseado no comportamento das partículas inteligentes. Como não existe ação sem reação nem efeito sem causa, o Bumerangue Neoliberal retorna com a mesma força para sua casa, depois de lançado para o mundo. Como será que farão o próximo lançamento? Bem, creio que agora os lançadores pensarão com muito mais afinco antes de fazê-lo.
O livro é super interessante e consegue prender o leitor até o final, navegando entre a radicalidade, doçura e emoção.
Parabéns Caco. Que você alcance o sucesso, embora já sejas um sucesso por criar esse enredo super fissurante de se ler.
José Luís